domingo, 16 de janeiro de 2011

Águas tristes...

Nosso blog divide com a população brasileira a tristeza desses últimos dias. Que os nossos governantes estudem criteriosamente áreas propícias para a moradia digna desse povo sofrido que constrói casas em áreas de risco por não terem outras opções.
 Os  nossos patrimônios culturais, como a Casa de Cora Coralina em Goiás não podem passar por constantes ameaças de inundações colocando em risco a história afetiva e literária desta sensível poeta.
Nosso planeta passa por um processo de hecatombe assustador, encontramo-nos numa espécie de novo circo romano, onde não só cristãos, mas, como todos aqueles que querem trazer contribuições de paz ao mundo, são diariamente jogados aos leões do mercado.
O cosumismo exarcebado que faz da China uma produtora de mercadorias e do restante do mundo produtores de "necessidades" pode fatalmente comprometer o desenvolvimento equilibrado das próximas gerações.

Juliana Gobbe

Aos desorganizados dirigentes da Atenas antiga, o filósofo Sócrates disse certa vez: Para a justiça prevalecer, é preciso tornar os reis filósofos e os filósofos reis. Os sofistas do marketing de hoje em dia oferecem uma fórmula análoga ainda que menos nobre: para o capitalismo de consumo prevalecer, é preciso tornar as crianças consumidores e tornar os consumidores crianças.
Benjamin R. Barber

Dica de leitura: Consumido (Como o mercado corrompe crianças, infantiliza adultos e engole cidadãos).
Autor: Benjamin R. Barber.
Editora: Record.


domingo, 9 de janeiro de 2011

PALAVRA DE PAJÉ


A Ala Jovem abre espaço para a cultura indígena através de entrevista concedida pelo Pajé Guaíra no evento Revelando entre Serras que termina hoje em Atibaia.

O pajé  Guaíra nasceu na aldeia do Bananal que fica entre Peruíbe e Itanhaém no estado de São Paulo, sua iniciação deu-se desde pequeno, pois já se interessava pelos mistérios da natureza, plantas e curas espirituais. Ele nos contou que só algumas pessoas tem o dom espiritual concedido por Nhanderu ( Deus), não é qualquer um que pode ser um pajé.                    
                                                                                              Foto: Gilberto Sant'Anna
AJ- O que faz um pajé?
PG- Os portugueses quando descobriram o Brasil ficaram intrigados com aqueles velhinhos que faziam curas e rezas e eram até então conhecidos como feiticeiros. O pajé tem grande responsabilidade pela espiritualidade dos integrantes de sua aldeia.Todo o meu conhecimento se dá através de sonhos, recebendo orientações e revelações de Nhanderu ( Deus), sobre qual remédio devo usar para a cura de determinadas doenças. Tudo o que quero conseguir, obtenho com a prática de mentalizações.
                                                                                          Foto: Gilberto Sant'Anna
 
AJ- Qual é o papel do cacique na aldeia?
PG- O cacique trabalha diretamente com a comunidade, resolve os problemas de organização dentro da aldeia.
AJ- Fale um pouquinho sobre a cultura dos índios?
PG-A nossa cultura nasce, cresce e morre pela natureza, os mais velhos vão passando conhecimentos aos mais jovens através da sua sabedoria “oral”. A nossa comida é natural, comemos carnes de caça, pesca e muitos legumes e frutas.
                                                                                           Foto: Gilberto Sant'Anna

AJ-As pessoas da tribo utilizam a língua portuguesa para se comunicarem?
PG-Na tribo tem uma escola, mistura-se o tupi e a língua portuguesa, a cultura indígena está se perdendo, conseguimos uma escola diferenciada, para preservar também a nossa língua.
AJ-O senhor já leu algum livro?
PG-Leio um pouquinho de cada.
AJ-Qual é a influência do homem branco na vida de vocês?
PG-O índio tem que saber viver com os brancos, os brancos ensinam coisas boas e ruins, levam bebidas alcoólicas quando vão nos visitar, eu proíbo a entrada delas na aldeia.
AJ- Qual é o papel da mulher na aldeia?
PG-A mulher deve cuidar dos filhos, quando quer ir embora vai, mas, se afasta da nossa cultura.
AJ-Uma mensagem para o homem branco:
PG:Peço aos amigos em geral, para que eles ajudem o branco entender  que nós queremos ser uma civilização sadia, os índios estão acabando e isso é muito ruim, há muita mistura, peço que os homens pensem um pouco  mais na cultura do índio.
                                                                                           Foto: Gilberto Sant'Anna

O processo de aculturação irreversível ao qual  os índios brasileiros são submetidos é fruto de uma sociedade niilista que pretende a qualquer custo universalizar tudo e todos.O nosso capitalismo pós-moderno ou hipermoderno ,como queiram , desparticulariza culturas seculares em nome do DEUS MERCADO.
Estive em 2.009 no Mato Grosso do Sul, e, constatei a terrível situação  vivenciada pelos índios dos arredores da cidade de Dourados, vi muitas vezes índias e até mesmo crianças totalmente embriagadas, aldeias inteiras catequizadas pelos brancos, e, infelizmente adormecidas em seus mais puros e preciosos instintos.
A resistência heróica do Pajé Guaíra conservando tradições importantíssimas para o bem estar do seu povo é um grande exemplo a ser seguido.

“Guarda nos olhos tua floresta, Curumim, que o homem branco já vem te ensinar o significado da palavra Fim.”


DICAS:
Leitura musical:  CD- Kangwaá – Cantando para Nhanderu.
Livro:  A guerra dos Tamoios  / Autor: Aylton Quintiliano


Abraços,
Juliana Gobbe






segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

CLARICEANDO...DECLARAÇÃO DE AMOR

Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.
Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Às vezes se assusta com o imprevisto de uma frase. Eu gosto de manejá-la - como gostaria de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes para nos dar para sempre uma herança de língua já feita. Todos nós que escrevemos nos atamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.
Essas dificuldades, nós as temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega.
Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.
Clarice Lispector in A descoberta do mundo.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

SIMPLESMENTE EU

Quem admira a obra da escritora Clarice Lispector não pode perder o espetáculo Simplesmente Eu, protagonizado pela atriz Beth Goulart. A atriz buscou o melhor da alma lispectoriana.Beth leva o público ao delírio com belos textos da escritora . Corram...a peça fica em cartaz até o próximo fim de semana no Teatro Renaissance em São Paulo.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Um pouco de música -poesia


 Canção do amor perfeito

O tempo seca a beleza.
seca o amor, seca as palavras.
Deixa tudo solto, leve,
desunido para sempre
como as areias nas águas.

O tempo seca a saudade,
seca as lembranças e as lágrimas.
Deixa algum retrato, apenas,
vagando seco e vazio
como estas conchas das praias.

O tempo seca o desejo
e suas velhas batalhas.
Seca o frágil arabesco,
vestígio do musgo humano,
na densa turfa mortuária.

Esperarei pelo tempo
com suas conquistas áridas.
Esperarei que te seque,
não na terra, Amor-Perfeito,
num tempo depois das almas.



Cecília Meireles (Poetisa brasileira, 1901-1964)