"É um verdadeiro acinte aos direitos humanos, por exemplo, o modo como a fala nordestina é retratada nas novelas de televisão, principalmente da Rede Globo. Todo personagem de origem nordestina é, sem exceção, um tipo grotesco, rústico, atrasado, criado para provocar o riso, o escárnio e o deboche dos demais personagens e do espectador. No plano linguístico, atores não-nordestinos expressam-se num arremedo de língua que não é falada em lugar nenhum no Brasil, muito menos no Nordeste. Costumo dizer que aquela deve ser a língua do Nordeste de Marte! Mas nós sabemos muito bem que essa atitude representa uma forma de marginalização e exclusão." (BAGNO, p. 44)
sábado, 9 de fevereiro de 2013
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
Inéditos e Dispersos
Sonho
Entre os complementos
uma massa se agita,
indecisa.
Por sobre os remendos
uma nuvem se estica,
esbranquecida.
Unindo os membros
uma luz principia
unida.
Entre os complementos.
Ana Cristina Cesar
sábado, 26 de janeiro de 2013
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
Escrever como se fala
Apropósito do acordo ortográfico (cuja vigência foi adiada – nem quero discutir!), um leitor da Folha de S. Paulo escreveu (02/02/2013): “Se for para simplificar (alguém tinha sugerido isso), eu incluiria uma regra básica: todo “s” com som de “z” deveria ser grafado como se fala e não como se escreve. Assim, todos escreveriam mais corretamente, pois bastaria seguir a pronúncia e não e etimologia”.
Escreveríamos com “z” palavras como “caza” (casa), além dos casos (cazos?) do tipo “zebra” (zebra). Provavelmente, ele incluiria escrever “ezemplo” (exemplo), eu penso.
A regra produziria uma simplificação incrível. Supondo que aceite extensões, que o caso mencionado seja só um exemplo, escreveríamos com “s” palavras como “saco” (saco), “naseu” (nasceu), “nasa” (nasça), “casado” (caçado / cassado), “sego” (cego), eseto (exceto), “felis” (feliz) – ninguém pronuncia “feliz”.
Mas “feliz” já oferece um problema. Na verdade, dois. Qual seria a vantagem de escrever “felis” com “s”, se o plural é “felizes”? Talvez o leitor admitisse levar em conta a morfologia, excluindo ainda a etimologia. Esse é o primeiro problema, que resolveria também casos como “papeu” (papel), que poderia continuar escrito com “l”, já que existem palavras como “papelaria / papelucho” etc., nas quais o “l” volta.
Mas como resolver o outro problema de “feliz”, já que muita gente pronuncia “filiz” (como pronuncia “mininu” / “leiti” etc.)? Haveria uma campanha para uniformizar as pronúncias? E quem fala “leitchi”, como escreveria “leite”? Deveria pronunciar “leite”?
Como o leitor não explicitou se a simplificação se aplicaria apenas aos “s” com som de “z” ou a todos os casos similares, fica-se na dúvida sobre a extensão da proposta (como se escreveria a sílaba final de “extensão”?). Se fosse mais audacioso, poderia propor que acabasse também a dupla grafia x / ch (escreveríamos sempre com x, digamos, “xoxo / xeque (ambos) coxa / xuxu / xapéu etc.). “Tóxico” se escreveria “tócsico” e “táxi”, “tácsi”? “Sexo” seria “secso” ou “séquisso”, conforme a pronúncia?
Da mesma forma, passaria a haver grafias alternativas como “Ricifi” em alguns lugares, “Recife” em outros e até “Récife/i” ainda em outros? E escreveríamos “festa”, com “é” (acentuado), já que na primeira sílaba ocorre uma vogal aberta, que teria que ser diferenciada do “e” de “feira”, fechado?
E como escrever “campo” e “dando” (e todas as sílabas similares à primeira dessas palavras)? Com uma vogal seguida de nasal ou com uma vogal com til? (“campo” ou “cãpo”?). Atualmente, escrevemos “mandaram” e “mandarão” (apesar de a pronúncia da sílaba final ser a mesma, havendo apenas diferença de tonicidade). A escrita simplificada seria a mesma para as duas formas? E se adotássemos “mandaram”, também escreveríamos “lam” (lã)? Lembremos que se escreve “quem”, “alguém”, palavras cuja sílaba final é um ditongo, e não uma vogal seguida de consoante nasal…
Nordestinos como o ex-vice-presidente Marco Maciel (um sujeito culto à beça), que fala “puque u pudê”, escreveria assim mesmo essa sequência ou escreveria “porque o poder”?
Diante de tantos casos a serem decididos (de que os mencionados são pequena amostra), não é muito mais óbvio pensar que, qualquer que seja o sistema adotado, o problema não está nele, mas no tempo dedicado à escrita, começando pela escola, sem que a questão se restrinja a ela?
Finalmente, qual seria o problema de aceitar (ou fechar um pouco o olho) certos casos de grafia divergente, dando a eles apenas a importância que têm, ou seja, considerando que a compreensão de um texto é menos prejudicada por problemas de grafia do que por outros, bem mais complexos e, em geral, mais graves?
Sírio Possenti
quinta-feira, 10 de janeiro de 2013
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
Entrevista: José Luis Sanfelice
Fonte: Diálogo Informativo Online
Em
continuidade ao debate sobre a educação no Brasil, o Espaço de Criação
Literária Bertold Brecht entrevistou uma importante personalidade dessa área do conhecimento.
Trata-se de José
Luís Sanfelice, professor Titular da cátedra de História da Educação na Universidade
Estadual de Campinas – UNICAMP (aposentado). Sempre se dedicou ao
estudo da filosofia da educação e políticas educacionais.
Sanfelice,
demonstrando absoluto domínio do tema, discorreu por horas agradáveis sobre a atual pedagogia que se pratica no
Brasil e seus desdobramentos face ao que denomina de “ditadura do capital”.
O mestre e
autor também comentou sobre seu livro “Movimento estudantil: a UNE na resistência
ao golpe de 64”.
ECL- Nos férreos anos ditatoriais no Brasil, conte-nos como surgiu o interesse em estudar a Une na
resistência ao golpe de 64?
JOSÉ LUIS SANFELICE- Eu estava cursando doutorado na PUC
na década de 80 ainda vivendo os rescaldos da ditadura. Nesse processo fizemos um
acordo onde foram divididos alguns temas da educação para serem estudados numa
pesquisa acadêmica. Surgiu a proposta para que cada aluno indicasse uma
temática adequada para futuras pesquisas. Escolhi o movimento estudantil numa indicação
condicionada à vivência e práticas no mesmo.
À época participava de várias manifestações de ruas,
tendências politicas, ideológicas que fizeram com que eu sentisse na própria
pele as consequências. Já no curso de
graduação assisti a queda do congresso da UNE em Ibiúna afetando vários colegas
que ficaram presos, acarretando assim, grande trauma, aquela situação foi extremamente constrangedora para mim. Nos anos 70 a
repressão continuou intensa e a UNE teve que passar para a clandestinidade. Por
nossa vez o maior desafio foi tentar fazê-la sobreviver. Meu grande interesse
era observar sob perspectiva teórica o que este movimento de estudantes estava
produzindo. Isso não tencionou de forma alguma
traduzir a consciência de todos à época, mas dava conta de explicar o
que ocorria no Brasil. Busquei documentação, revisão bibliográfica e então a tese foi convertida no livro: “Movimento estudantil: a UNE na
resistência ao golpe de 64”.
ECL: Há muitos modelos pedagógicos sendo discutidos hoje no país. Qual é a crítica maior em relação à pedagogia moderna
aplicada no Brasil?
JOSÉ LUIS SANFELICE - Gosto muito de um livro da
pesquisadora Lúcia Neves: A nova pedagogia da hegemonia, uma
obra interessantíssima, coletânea de um grupo de pesquisa muito sólido do ponto
de vista teórico. Nela fica clara a face do que se apresenta hoje no Brasil, ou
seja, um modelo educacional predominante que advém de novos paradigmas
filosóficos, isso significa o grande movimento cultural que chamamos genericamente
pós- modernismo, que contesta o princípio da racionalidade. Para substituir a
razão a busca do pós moderno caminhou para a subjetividade, relativismo da verdade
e desembocou na auto ajuda. Essa grande movimentação tem implicações no modelo
vigente. Dos anos 80 para cá a pedagogia tem uma origem institucional que vem
das agências, Unesco, Banco Mundial e FMI. O próprio relatório Jacques Delors
prescreve as diretrizes de um modelo educacional destacando entre outros
fatores: os pilares do conhecimento e as
habilidades que cada estudante deve ter.
O que ocorre no
Brasil é a conformação e assimilação aos acordos internacionais. Há toda uma
orquestração que produziu o que pode se chamar de “pedagogia da hegemonia”, ou
seja, uma educação liberal numa versão neo para escamotear seu real sentido,
com tendência a ser pouco diretiva. Assim, perdemos um arcabouço da produção
cultural histórica que ninguém vislumbra mais. São dois fenômenos mundiais: a
literatura de autoajuda e a igreja. Se pela primeira o ser humano não
conseguir superar seus problemas o que lhe resta é apelar à segunda e suas divindades. Essa perspectiva de mundo focada
na educação finda no apostilamento que mesmo as escolas públicas compram do sistema
privado. Ela representa uma estratégia da globalização para que a formação em
países periféricos supra um determinado tipo de mão de obra que cabe à mesma no
sistema mundial de produção.
Nesses moldes os ícones midiáticos da educação assumem
como intelectuais a gestão desta. A eles restam somente os interesses de
caráter econômico. Nesse contexto ela também passa a ser entendida como
mercadoria seguindo a lógica do capital. Esses esquemas implicam no uso de novas
tecnologias, padronização de textos, material didático num desdobramento
econômico imenso com esta conotação de mercado. Gradativamente os bancos irão
estimular a privatização da educação como é o caso do estado de São Paulo com a
maior privatização desta área no país. Esta é a grande tônica deste processo ao
qual denunciamos e tentamos resistir.
ECL- Diante das várias ideologias políticas que se apresentam no país. O que é a esquerda no Brasil hoje?
JOSÉ LUIS SANFELICE - Não temos esquerda hoje,
literalmente seria toda manifestação de caráter revolucionário que se opusesse
ao sistema capitalista. Como já não temos essa radicalidade nos chamados
partidos de esquerda, temos no máximo uma manifestação social democrática ou 3ª via.Os governos hoje independentemente do partido cuidam minimamente das
questões sociais, ou seja, azeitam a máquina para a sociedade capitalista não
entrar em falência. Suas ações políticas são focadas na administração da
desgraça.
Num país como o Brasil, por exemplo, nunca tivemos estado
de bem estar social diferente dos países de primeiro mundo. Hoje perdemos
muito.
A perspectiva histórica depois das “previsões” de
Fukuyama alicerçava-se na seguinte hipótese: capitalismo ou a barbárie, sendo
que a segunda encontra-se já totalmente inserida no primeiro.
Temos a sensação
hoje que a resistência aos desmandos deste sistema existe em grupos
minoritários no país.
ECL- Como se articula ideologicamente o movimento
estudantil no Brasil hoje?
JOSÉ LUIS SANFELICE- O país tem um movimento estudantil
regido pela UNE com um quadro semelhante ao passado com tendências que
encontram-se configuradas como estão. No meu livro não temos a presença do PT,
pois não existia. Hoje existe uma diversidade, mas, já há algum tempo que é uma
tendência só que administra o movimento estudantil como base de apoio ao PT, ou
seja, a instituição submete-se à
orientação do Partido dos Trabalhadores.Essa proximidade com o estado não constrói
resistências. Conheço outro movimento interessante, o: UJC (União de Jovens Comunistas)
que militam paralelamente.Outro dado preocupante é que muitos estudantes nunca chegarão perto de
nenhum movimento como estes.
ECL-Em abril o supremo aprovou as cotas raciais. Qual é o
seu posicionamento sobre elas?
JOSÉ LUIS SANFELICE- Um forte fortalecimento do ensino
fundamental e médio levaria a um resultado mais interessante na questão da
cota. O ensino fundamental está quase universalizado no Brasil , na questão de
oferta e acesso inicial. Outro ponto é que a cota é um procedimento de política
focada, ou seja, outro governo pode entrar e acabar com o mesmo. A mídia também
espetaculariza um pouco certas questões.
Enfim, torna-se difícil discutir isso com quem está
utilizando o sistema.
Abaixo elencamos os livros que marcaram a vida do
professor Sanfelice:
A nossa dica de Leitura :
Editora: Alínea
Abraços,
Juliana Gobbe
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