segunda-feira, 5 de março de 2012

Simplesmente Cooperifa



Em outubro de 2001, os poetas Sérgio Vaz e Marco Pezão organizaram, num bar de Taboão da Serra, na Grande São Paulo, o primeiro Sarau da Cooperifa.
Quase ninguém soube, quase ninguém viu --e durante um bom tempo foi assim. Dez anos depois, e desde 2003 em outro endereço, um boteco no Jardim Guarujá, zona sul da capital, o encontro poético é um acontecimento da periferia paulistana.
Fundador da Cooperifa (Cooperativa Cultural da Periferia), Vaz, sete livros publicados, criou filhotes do sarau.
Fez a Semana de Arte Moderna da Periferia, a Mostra Cultural da Cooperifa, a Poesia no Ar (balões soltos com versos), a Chuva de Livros, o Cinema na Laje, o Ajoelhaço (em que homens pedem perdão às mulheres) etc.
E o sarau irradiou poesia pelas bordas da cidade.
Há pelo menos 50 encontros do tipo em São Paulo, a maior parte na periferia. Dos saraus surgiram escritores elogiados --como o próprio Vaz, Binho e Sacolinha-- e um nicho editorial.

Marlene Bergamo/Folhapress
Sérgio Vaz (centro) e Cocão (de boné) no Sarau da Cooperifa
Sérgio Vaz (centro) e Cocão (de boné) no Sarau da Cooperifa
Saíram da periferia iniciativas como as Edições Toró, de Allan da Rosa, e o Selo Povo, de Ferréz --que não faz sarau, mas os elogia e vai a muitos lançar seus livros. Até uma editora tradicional, a Global, criou um selo de literatura periférica.
O movimento das franjas ganhou o respeito do centro, "do outro lado da ponte".
"Estamos no meio de uma revolução. A poesia, que até o século passado era vista como arte de elite, está mudando de dono e de classe social, indo para a periferia. É a coisa mais importante da literatura brasileira hoje", diz o poeta Frederico Barbosa, diretor da Casa das Rosas, que abriga saraus na avenida Paulista, organizados com o auxílio de Marco Pezão.
A professora da UFRJ Heloisa Buarque de Hollanda vê essa cena como um renascimento "dos velhos saraus de salão do século 19" transfigurados, um "rito de passagem entre o privado e o público".
A onda poética periférica se junta a um bom momento para a poesia no mercado editorial. Novas coleções são lançadas e poetas inéditos chegam ao país.
Esta edição voltada ao verso destaca ainda o novo livro de Francisco Alvim, novas expressões poéticas em meios não impressos e a obra do crítico americano David Orr, que discute o significado de ler poesia hoje.O Cooperifa acontece em um local que durante o dia funciona um bar e toda quarta a noite se transforma num palco improvisado e se reúnem desde donas de casa a estudantes junto com cervejas e o famoso escondidinho... gritos de liberdade, desabafos de trabalhador, declarações de amor... ali uma pessoa comum sobe no palco e vira uma estrela, lava sua alma e divide suas alegrias, revoltas e dores com o público, é simplesmente lindo...

Fábio Victor

Abraços,

Juliana Gobbe

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Sarau Palmarino



"Este evento é de iniciativa do núcleo Embu das Artes do Circulo Palmarino, corrente do movimento negro. Acontece na periferia de Embu das Artes, município da grande São Paulo. A atividade reúne músicos, poetas, dançarinos, ativistas culturais e pessoas da comunidade e da região".

Onde: Sede Nacional do Circulo Palmarino - Rua Campos Sales, 12. Presidente Kennedy. Embu das Artes – SP
Quando: todo último sábado do mês, às 19h
Quanto: gratuito
Informações: (11) 9840-7244 (com Juninho), (11) 7656- 8193 (com Rodrigo) ou   circulopalmarinoembu@yahoo.com.br.

Abraços,

Juliana Gobbe

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Brecht: poesia em relevo.

O Espaço de Criação Literária retoma suas atividades em 2.012 com a oficina: Brecht: poesia em relevo. No evento ocorrerá uma discussão sobre a obra poética do dramaturgo e poeta alemão, bem como sua práxis na sociedade do século XX.

Entrada Franca.
Entrega de certificado de participação.

Abraços,

Juliana Gobbe.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

De casa pro trabalho, do trabalho pra casa.


por Marcelo Sguassábia
ILUSTRAÇÃO: THIAGO CAYRES

-Nunca me esqueço. Eu devia ter uns quatro anos quando aquela brotoeja pipocou no seu avô. Apareceu assim, do nada, numas férias de verão lá em São Vicente. Ele não deu bola e a coisa foi piorando, piorando, virou outro negócio que quase fez o velho encontrar Nossa Senhora mais cedo.
- Sim, papai. O senhor sempre conta essa história.
- E vou continuar contando até vocês aprenderem que são demais os perigos desta vida, e que pra morrer basta estar vivo. Não precisa ir longe pra perceber que a gente está cercado de ameaças. Ontem, por exemplo, ao acender a luz do quarto percebi uma mancha amarela em uma das pás do ventilador de teto, próxima ao terceiro parafuso que prende o globinho com a lâmpada. Tratando-se ou não de um foco fúngico, de resquícios de pólen ou seja lá o que for, convém substituí-lo por outro, pra afastar de vez o risco de alergia. Concorda comigo, amor?
- Sim, querido. Vai que acontece alguma coisa.
-  Aproveitando a deixa, venho notando ultimamente que o peso da porta da área de serviço está mantendo-a aberta em ângulo maior que 25 graus, o que é um perigo para criar corrente de vento dentro de casa. Vento encanado pode causar resfriado, que é um passo pra gripe, que mal curada vira pneumonia, que de pneumonia evolui fácil para…
- Deixa comigo, amor. Por via das duvidas, providenciarei pra que fique sempre fechada.
- Melhor assim, melhor assim.
- Não vai tomar seu mingau com semente de linhaça? Acabei de fazer.
- Estou atrasado, não vai dar tempo. Dá pra Maria Luiza comer. Estou sentindo ela meio pra baixo. Algo me diz que é deficiência vitamínica, mas não afastaria a possibilidade de uma virose com comprometimento temporário da função hepática. Dai para um aumento incontrolável de glóbulos brancos não custa nada. Foi o que deu na Tia Josélia, lembra? Coitadinha, tá até hoje sem previsão de alta. Bom, o dever me chama. A essa hora já deve ter um montão de gente me esperando.
Reparte o meu cabelo, querida. Deixa eu dar uma umedecida que fica mais fácil. Isso, a risca tem que ficar alinhada com o nariz. Isso, assim tá bom. Ah, por falar em umedecer, lembro a todos que ninguém merece um foco de dengue dentro de casa. Portanto, tampas de privada, já sabem: sempre fechando o vaso sanitário.
- Mas pai, criadouro de Aedes só se forma em água parada.
- Sei, e a água que fica lá no vaso o que é? Falam na televisão pra tomar cuidado com água no vaso. Pra gente se garantir, tinha que deixar alguém apertando o botão de descarga  o tempo todo. O mesmo vale pra esses restinhos de água nos copos em cima da pia. Um perigo, um perigo!!
- Mas espera aí, assim também já é demais… usamos estes copos agorinha mesmo!!!
- Meu amor, o mosquito da dengue não quer saber se a água está parada há dois minutos ou há quinze dias. O negócio dele é água parada e pronto, azar o nosso. Bom, depois a gente continua a conversa. O patrão me chama e a plateia me espera. Tchau!
Respeitável público, com vocês o único, o fenomenal, o inimitável, o primeiro trapezista das Américas a executar  o quádruplo mortal sem rede de proteção! Rufem os tambores… diretamente de Anunciación de las Astúrias, o grande, o fantástico, o destemido… Lorenzo de las Cruces, mais conhecido como “A Hélice Humana”!

© Direitos Reservados
Marcelo Pirajá Sguassábia é redator publicitário e colunista em diversas publicações impressas e eletrônicas.
Blogs:
www.consoantesreticentes.blogspot.com (contos e crônicas)
www.letraeme.blogspot.com (portfólio)
Email: msguassabia@yahoo.com.br

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Henriette Effenberger

 O Espaço de Criação Literária teve a deliciosa oportunidade de entrevistar a escitora Henriette Effenberger. A autora é hoje em dia um dos grandes nomes da literatura bragantina. Nesta entrevista Henriette, entre outros assuntos, discorre sobre o seu livro mais recente: "80 anos de acordes em harmonia - Sociedade Sinfônica Amadores da Arte Musical".

      Henriette e o historiador André Alves Januario no lançamento do livro sobre a Orquestra.

Confira a entrevista:


Ala Jovem- Como foi a sua primeira experiência como escritora?

HENRIETTE EFFENBERGER-Comecei a escrever na adolescência. O gosto pela leitura adquirido desde a infância acabou por levar-me a escrever. Primeiro alguns versos, depois crônicas e contos, que ficavam ( literalmente) engavetados. Muito mais tarde, quando eu já trabalhava no Banco ( antigo Banespa, atual Santander), criei coragem e comecei a enviar os trabalhos para concursos literários. Com algumas premiações importantes, passei a dedicar mais tempo à literatura.

Ala Jovem- Fale sobre sua trajetória dentro da ASES?

HENRIETTE EFFENBERGER-Sou sócia pioneira da ASES, isto é, faço parte do primeiro grupo de escritores que, incentivados por Lóla Prata, resolveu criar uma associação de escritores em Bragança Paulista. A primeira reunião ocorreu em 5 de junho de 1991 e a fundação da ASES seis meses depois, em 22 de fevereiro de 1992. Fiz parte da primeira diretoria como tesoureira, e de todas as demais que se seguiram nos mais diferentes cargos, inclusive na presidência que ocupei por duas gestões consecutivas. Atualmente sou Diretora de Eventos da ASES.

Ala Jovem- O que você pensa sobre a leitura em tempos digitais? 

HENRIETTE EFFENBERGER-Acho que a leitura é de suma importância para crianças, jovens e adultos. Se ela é feita por intermédio do livro impresso ou digital, não faz a menor diferença. Importante mesmo é o poder transformador da leitura ( do pergaminho aos tablets).

Ala Jovem-Como se dá o seu processo de criação? 

HENRIETTE EFFENBERGER-O meu processo criativo normalmente é despertado por um sentimento ( de amor, de indignação, de solidariedade, de abandono, etc), as palavras só vêm depois, quando me sento no computador ( antigamente, na máquina de escrever).
                  Foto Histórica do Cine Theatro Central em Bragança Paulista.

Ala Jovem- Como surgiu a ideia para a escrita do seu último livro?

HENRIETTE EFFENBERGER- Não gostaria que fosse o último, prefiro dizer o mais recente...rs. Foi um livro com embasamento histórico, não ficção, sobre o 80° aniversário da Orquestra Sinfônica de Bragança Paulista. Intitulado 80 anos de acordes em harmonia - Sociedade Sinfônica Amadores da Arte Musical - Nesse livro houve a importante participação do historiador André Alves Januário que realizou as pesquisas nos jornais locais e no acervo da Casa de Cultura Maestro Demétrio Kipman, mantenedora da orquestra e da fotógrafa Samanta A.Alves, que lindamente fotografou não só a orquestra atual, mas os diretores e as dependências da Casa de Cultura, um patrimônio que Bragança se orgulha em possuir. O livro, ao invés de ser dividido em capítulos, foi dividido em quatro movimentos, como o de uma sinfonia. No primeiro movimento, conto a história da formação da orquestra - que se originou com o fim do cinema falado. Os músicos da SSAAM faziam parte da orquestra que acompanhava os filmes mudos, que com a chegada do cinema falado ficaram sem função. O segundo movimento fala de um breve período de inatividade da orquestra, com a saída do maestro Demétrio Kipman seu fundador. O terceiro a retomada das atividades com a contratação do jovem maestro Fernando Amos Siriani e o quarto trata do nível atual da orquestra, sob a regência do Maestro Eduardo Ostergrein. Um espaço importante do livro é dedicado à Família Calzavara, esteio da orquestra desde o início com o envolvimento de Fábio Calzavara até os dias atuais quando seus filhos, Walkir ( atual presidente da Casa de Cultura), Victório e Fábio Calzavara Júnior assumem a responsabilidade pela liderança da Casa de Cultura. Não tenho a menor dúvida que se não fosse a família Calzavara a orquestra não teria atingido o nível que se encontra e, talvez, nem tivesse completado os 80 anos de história.
                               Formação inicial da Orquestra: 1.931.
                                  Formação atual da Orquestra.

Ala Jovem- Quais são os próximos projetos literários? 

HENRIETTE EFFENBERGER-Tenho prontos três livros infantis, um de poesia e dois romances inacabados. Então, vamos ver quais desses projetos vêm à luz primeiro!



Abraços,
Juliana Gobbe.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Bobo e sua corte


Já reparou como os termos “Bobo” e “Tolo” têm sinônimos? Dentre tantos, “Doidivanas” sempre me chamou a atenção. Acho que foi lendo algum romance de cavalaria ou livro de Julio Diniz que vi a palavra pela primeira vez. Recorri a um pequeno e nada confiável dicionário e encontrei lá: “Doidivanas: o mesmo que Estouvado”. Fui em “Estouvado” e li: o mesmo que Doidivanas. Ou seja, o pai dos burros me fez de bobo.
Ser bobo vai além de ser otário. Tem também o sentido de ignorante, que contempla como sinônimos uma extensa família de quadrúpedes: besta, asno, jerico, jumento, jegue e simpatizantes. Sem falar da anta e da toupeira.
Fora do reino animal, um dos meus favoritos é “Bocó”, quase um arcaísmo atualmente. Melhor ainda é “Bocó de Mola”, que sugere um upgrade na acepção original (ou um downgrade, no caso).
Igualmente em desuso está o “Monte”. Largamente empregado na zona rural de São João da Boa Vista e adjacências nos anos 70, o vocábulo com toda certeza é oriundo do sul de Minas. Não sei se continua vigindo. Monte é, basicamente, o mala de hoje. Tem o significado de empecilho, estorvo que fica no meio, atrapalhando tudo e empatando a f…
Vamos ao “Tonto”. Ele é parecido com o bobo, mas não é a mesma coisa. O bobo é menos bobo que o tonto. Historicamente o bobo tem ofício definido. Como todos sabem, era ele quem divertia os reis nas cortes medievais. O tonto, por sua vez, é um Mane-Quarqué (que me perdoem meus leitores Manoéis ou Manuéis), um “Girolas” inofensivo. Por falar em Mané, há que se mencionar aqui os derivativos “Mané-Coco” e “Mané-Jacá”, além do conhecidíssimo “Mané-Patola”, a quem algumas populações ribeirinhas denominam simplesmente de “Patola”.
Temos ainda o “Boboca”, que imagino um semi-bobo, aspirante a bobo ou algo que o valha. É mais do que um bobinho, mas é menos que um bobo 100% genuíno. Na mesma classe estão os “Parvos”, a bradarem suas parvoíces em qualquer tempo e lugar.
A letra “P” é rica em sinônimos de lesos: temos, entre outros verbetes, “Palerma”, “Paspalho” e “Pateta” – todos com sentido semelhante e QI idem.
Na letra “T”, além do tolo e da toupeira já citados, encontramos o “Tapado”. Por analogia, podemos caracterizá-lo como um surdo-mudo neurológico. Nada é capaz de permear sua couraça obtusa. Pra cantar a “Florentina” do Tiririca ele precisa olhar a letra.
Capítulo à parte merecem o “Doido de Pedra” e o “Doido Varrido”, mas não serei eu o maluco a atribuir-lhes o sentido. Só imagino um napoleão-de-hospício esculpido em mármore e um serzinho com camisa de força se debatendo entre ramos de piaçava.
O “Abestado” é tão inclassificável que nem é aceito pelo Aurélio. O insigne dicionarista o cataloga como “Abestalhado” – que particularmente considero um tanto quanto articulado para o caso. Abestado é infinitamente mais besta que abestalhado, concorda?
Muitos termos possuem a mesma raiz etimológica, mas gradientes peculiares de significado. Compare “burro” e “burraldo”. O leitor logo perceberá que o burraldo puxa a carroça com mais força. O burraldo é o burro xucro, incorrigível, que deixa o rastro das ferraduras por onde quer que passe. O burro é menos pretensioso na escala búrrica – de vez em quando é capaz de falar coisa com coisa. Muito de vez em quando, mas é.
“Babaca” e “Panaca”. Mesmo que a grosso modo não pareça, entre eles há uma notável diferença. A grafia semelhante esconde na verdade um abismo conotativo. Explico: o panaca é mais lorpa que o babaca. Panaca ri das cenas de torta na cara; já o babaca não acha mais graça nisso, não. Na escala evolutiva, está um degrau acima do panaca. O máximo que o babaca faz é chifrinho nas fotos de festa de aniversário, embora afirme aos mais chegados que já abandonou o vício.
Pouca gente se dá conta, mas “imbecil” e “idiota” não são propriamente xingos. Idiotia e imbecilidade são estados psíquicos – patologias catalogadas e estudadas pela psiquiatria moderna. Psiquiatria que já vem se debruçando sobre os “Seqüelados” e os “Sem-Noção” – neo-zuretas desse insano início de século 21.
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Marcelo Pirajá Sguassábia é redator publicitário e colunista em diversas publicações impressas e eletrônicas.
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