sábado, 25 de janeiro de 2014

Ode ao burguês





Eu insulto o burguês! O burguês-níquel
o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! O homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!
Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampiões! Os condes Joões! Os duques zurros!
Que vivem dentro de muros sem pulos,
e gemem sangue de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os “Printemps” com as unhas!


Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará sol? Choverá? Arlequinal!
Mas as chuvas dos rosais
O êxtase fará sempre Sol!


Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
Ao burguês-cinema! Ao burguês-tiuguiri!


Padaria Suíssa! Morte viva ao Adriano!
- Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
- Um colar...Conto e quinhentos!!!


- Más nós morremos de fome!

Come! Come-te a ti mesmo, oh! Gelatina pasma!
Oh! Purê de batatas morais!
Oh! Cabelos na ventas! Oh! Carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados
Ódios aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!


De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a central do meu rancor inebriante!
Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!
Fora! Fu! Fora o bom burguês!...

Mário de Andrade


Abraços,
Juliana Gobbe

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Luciano Tasso


Luciano Tasso nasceu em 1974 na cidade de Ribeirão Preto, interior paulista. Formou-se em Comunicação Social pela Escola de Comunicação e Artes da USP e trabalhou durante nove anos como diretor de arte para agências de publicidade em São Paulo e no exterior. Desde 2007 atua como ilustrador para livros, revistas e Histórias em Quadrinhos. Em 2008 venceu o Salão Internacional de Desenho para a Imprensa de Porto Alegre na categoria ilustração editorial. Já ilustrou várias obras, dentre elas: “Os 12 Trabalhos de Hércules”, “Artes do Caipora em Cordel” e “A Saga de Beowulf” escritos por Marco Haurélio; “Como Sou” do autor Thiago de Mello; “O que é Cultura Popular” de Moreira de Acopiara e “Lua Estrela Baião” de Assis Ângelo. (Informações fornecidas pelo autor)



 Foto: Clarice P. Chieppe

ECL- Bertold Brecht- Como se deu sua aproximação com a arte de ilustrar?

LUCIANO TASSO - Desenhar sempre foi minha brincadeira preferida. Desde criança dedicava horas do dia tentando reproduzir os personagens que assistia na televisão. Na adolescência, entre as caricaturas dos professores e dos amigos da classe, sonhava com o estereótipo do artista que se embrenhava na vida, sofria pela sua criação; num mundo glamoroso e boêmio... Nem de longe passava pela minha cabeça que isso pudesse se transformar, algum dia, em profissão: arte não punha feijão na panela!
Foi mais tarde, quando tive oportunidade de escolher uma boa faculdade que optei por me graduar em publicidade. Não sabia direito o que se fazia nessa área de atuação, mas imaginava que a função de "diretor de arte" tivesse algo relacionado à ilustração. Foi um engano. Na prática, esse cargo é responsável pela parte visual da comunicação; seu exercício treina o olhar para a estética visual, dá noções de equilíbrio e composição, mas é bem diferente de uma abordagem artística.
Comecei, então, a realizar algumas tentativas de ilustrar para a publicidade. Com o surgimento da internet as chances aumentaram, pois era mais prático resolver a comunicação usando ilustrações. Neste período, também aprendi a trabalhar com animação de personagens e vinhetas, o que me garantiu posteriormente a participação na produção de um longa-metragem infantil.
Graças a um amigo meu de infância, o Daniel Bueno, que se tornou um grande ilustrador de livros, pude perceber que trabalhar para o mercado editorial dava maior liberdade artística. Decidi, então, investir nessa área e tive a oportunidade de dividir o estúdio com o Maurício Negro, um grande profissional com quem aprendi muito a ilustração e o mercado de livros.
Não foi fácil, mas aos poucos consegui fazer um portfólio com alguns livros e vários projetos pessoais. Contei com a ajuda da Dulce Seabra, da editora Global para fazer uma apresentação do meu trabalho na editora Cortez e fui muito bem recebido pelo Amir Piedade, que gostou do meu trabalho. A partir de então, consegui manter uma produção contínua e hoje, posso dizer que minha brincadeira preferida, desde a infância é que garante o feijão na mesa.


ECL- Bertold Brecht - Muitas das suas ilustrações estão em obras que abarcam a cultura popular no Brasil. Como você avalia a inserção desses trabalhos no atual "mercado" editorial brasileiro?

LUCIANO TASSO - O mercado literário brasileiro, ainda é muito insipiente. Observo o crescimento de atividades que buscam valorizar nossa cultura escrita, como feiras literárias, ações do governo e das associações para representar o Brasil no exterior, autores contemporãneos e consagrados que ganham traduções em diversos países além de produções independentes, como vemos acontecer com a poesia de Cordel, mas isso ainda está longe de configurar um panorama favorável. O grande peso dessa relação ainda está na questão econômica e na educação. Temos pouco incentivo à leitura no ensino de base e isso prejudica a formação de um público leitor. Por outro lado, o livro ainda é um objeto caro, o que faz com que as editoras privilegiem publicações focadas na certeza da venda, com autores conhecidos ou best-sellers que chegam do exterior com todo o arsenal de marketing para sua venda.
Esse estrangulamento mercadológico dificulta a aposta na diversificação dos temas.
Por outro lado, temos um material farto de nossa história que está sendo resgatado, seja por incentivos do governo, pesquisas, associações, gente que realmente se importa com a nossa cultura. Falta maior interesse em fazer com que os eucadores e o mercado consigam achar uma forma de reutilizar e divulgar esses conhecimentos.
Algumas editoras estão empenhadas nesse direcionamento. É o caso da Global, onde tive a primeira oportunidade de ilustrar poemas relacionados à cultura popular no livro "Meus Romances de Cordel" de Marco Haurélio. São iniciativas valorosas, pois acredito que a aproximação com a nossa realidade traz subsídios para compreender nossa história e a consequência disso é seguramente uma vida melhor.
De tempos em tempos, presencio o fenômeno de ver muitas pessoas lendo títulos estrangeiros - os chamados "sucesso de vendas" - seja nos ônibus ou nos metrôs de São Paulo, o que mostra a miopia de muitas editoras e donos de livrarias que afirmam que brasileiro não lê. Talvez seja o caso de divulgar, com a mesma força, romances nacionais e da cultura popular que tenho certeza, são muito mais coloridos!


ECL Bertold Brecht - O livro Como Sou do poeta amazonense Thiago de Mello reúne poemas especialmente para o público jovem. Conte nos sobre o processo de ilustração dessa obra.

LUCIANO TASSO - Ilustrar poesia é sempre uma tarefa difícil, pelo menos para mim. Em todos os projetos, eu procuro entender o universo do autor naquele referido texto e busco refleti-lo nas ilustrações, mantendo sempre o cuidado para simplesmente não "traduzir" o que está escrito.
Já ouvi algumas pessoas do meio se apropriarem do termo intertextualidade, para definir o recurso de criar uma narrativa paralela ao texto fazendo uso de imagens. É um pouco isso que tento fazer. No caso do livro "Como Sou", que não tinha uma narrativa contínua, acabei sintetizando os capítulos em ilustrações. Tive como inspiração um fio condutor: a água, o rio, a chuva. O resultado foi que cada arte acabou sendo um poema visual composto por elementos colhidos do texto.


ECL - Bertold Brecht - O artista maltês Joe Sacco teve grande reconhecimento por seu trabalho que engloba história em quadrinhos e jornalismo retratando principalmente a situação do povo palestino. Existe hoje uma preocupação em retratar a realidade por meio da ilustração?

LUCIANO TASSO - A ilustração, como forma de expressão artística, sempre foi preocupada em retratar alguma realidade, seja ela pessoal ou coletiva. o que Joe Sacco fez, através de seu olhar jornalístico, foi dar voz a um drama vivido por um povo que simplesmente é ignorada pela grande mídia e, de forma esplêndida utilizou a linguagem dos quadrinhos para humanizar e aproximar sua mensagem para diferentes tipos de leitores.
Mas esse tipo de abordagem é rara. O que vejo muito hoje, na maioria dos casos, é a retratação de uma realidade concernente com o tempo que vivemos, ou seja, uma realidade difusa, intangível, onde as preocupações locais se confundem com as globais. É uma fase artística que eu brinco com os amigos chamando de cyber - barroco : uma mistura de diversas influências em composições extremamente elaboradas que têm uma cara ao mesmo tempo desterritorializada, mas com estilos muitos pessoais.
Como todas as fases artísticas, essa também será transitória, no entanto, ela influencia fortemente não só a ilustração, mas todo tipo de manifestação visual. O caso mais evidente é o grafite - quando vejo as pinturas de personagens amarelados e subnutridos, excesso de caveiras, ou tribais neo-alguma-coisa, construo um imaginário de arte totalmente desvinculado de qualquer relação política mais aprofundada. Não sei se há empenho em se politizar ou retratar a realidade do seu entorno, mas também não acho que isso seja obrigatório. Cada um usa a voz e os recursos que tem para se expressar artisticamente. Sinto apenas um certo desânimo por existirem poucos trabalhos como os do Joe Sacco.


Luciano Tasso nos presenteou com uma caricatura de Bertold Brecht:


Abraços,
Juliana Gobbe

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Antonio Barreto

O baiano Antonio Barreto é considerado atualmente um dos maiores nomes do cordel no Brasil. Preocupado com as causas de seu tempo, o autor não poupa críticas aos políticos brasileiros , bem como, artistas e programas da grande mídia. O cordel Big Brother Brasil: um programa imbecil  teve grande repercussão no país. Em entrevista ao ECL Bertold Brecht o cordelista nos contou sobre seus projetos.
                                
                 
Arquivo pessoal de Antonio Barreto

ECL- De que forma, projetos, tais como: “Leituras públicas” podem contribuir para a aproximação dos leitores ao universo do cordel?
ANTONIO BARRETO - Pois é, a tarefa de formar leitores não é só responsabilidade da escola, mas de todos nós: família, mídia, poetas, formadores de opinião em geral. E Leituras Públicas, aqui em Salvador, é um projeto da Fundação Pedro Calmon, cujo objetivo é estimular a difusão do livro, o gosto pela leitura e o incentivo à produção cultural. São encontros mensais com autores locais em que se promove o diálogo do leitor com texto. Eu fui um dos convidados este ano (2013) e ali tive a oportunidade de mostrar um pouco de minha produção com o lançamento de uma coletânea que reúne 11 folhetos de cordel, intitulada “Big Brother Brasil: um programa imbecil e outros cordéis”, que faz parte de um outro projeto da Fundação Pedro Calmon.

ECL-O cordel Big Brother Brasil: um programa imbecil espalhou-se rapidamente por todo o país. Conte-nos como foi o processo de criação daquilo que ficou conhecido como uma valiosa crítica ao entretenimento da grande mídia?
ANTONIO BARRETO - O processo de criação do cordel do BBB se deu de uma forma curiosa! Eu estava num barzinho com amigos poetas dialogando sobre os rumos da poesia aqui em nossa terra. De repente, uma voz do “além” tocou a minha consciência dizendo: “Big brother Brasil – Um programa imbecil” !  De pronto fiz a anotação do título do referido cordel em um guardanapo, mas a construção do texto só veio a acontecer depois de alguns meses. Após a conclusão, enviei o texto para um casal amigo em BH (Paulo e Nívea) e eles divulgaram na Internet. A partir daí foi um sucesso que não teve fim. Até hoje recebo congratulações de um mundaréu de pessoas de todos os recantos do planeta azul !

ECL-Em tempos em que “a arte pela arte” domina os meios de comunicação numa profusão ilimitada de espetacularização. Como você avalia o papel do artista popular?
ANTONIO BARRETO - A verdadeira arte precisa estar engajada com o social. E o papel do artista popular é estar presente em todos os espaços da mídia, mas visando sempre uma contribuição maior para embelezar a vida. No caso do cordelista, o ideal seria uma criação artística visando a formação de um leitor crítico que seja capaz de interagir habilmente no seio da sociedade. Não vale a pena escrever cordel por escrever, por curiosidade; o  verdadeiro cordelista precisa se empenhar bastante, ter persistência e dialogar com o seu leitor, tendo a consciência de  que a nossa produção deve estar seriamente relacionada com o contexto social, cultural, político e econômico do qual estamos inseridos. De modo que fico entristecido ao ver tanta banalização da arte no momento atual.

ECL-Como os professores do Brasil podem usar o cordel como um “instrumento pedagógico”?
ANTONIO BARRETO - Da mesma forma que utilizamos outros gêneros textuais, a exemplo do conto, crônica, poesia, romance, letra de música etc. O ideal seria o MEC estabelecer uma lei que oficializasse o ensino do cordel na grade curricular do ensino médio e fundamental. E não é fácil aproximar o aluno do livro, já que os instrumentos tecnológicos atuais são extremamente sedutores. A literatura de cordel indiscutivelmente é um gênero textual muito significativo, sedutor, carregado de ludicidade, que tem o poder de desenvolver nos alunos o senso crítico, o gosto pela leitura, o raciocínio lógico. Aqui em Salvador e em todo o estado da Bahia as escolas, tanto particulares quanto públicas, seguem empenhadas na utilização do cordel como um instrumento pedagógico capaz de nos auxiliar no processo de ensino aprendizagem. Eu, por exemplo, venho há 10 anos realizando oficinas de cordel em todo o estado, experiência esta carregada de  êxito.

ECL- Quais são os próximos projetos do artista Antonio Barreto?
ANTONIO BARRETO - Olha, Juliana, tenho um mundo todo de projetos, mas no momento estou podendo falar  apenas de dois!  O primeiro vai acontecer em 2014, que é a publicação de um livro em que reunirei 21 cordéis de minha autoria relacionados à educação, ou seja, cordéis que foram feitos a partir da experiência prática com os meus alunos. O segundo é para 2015, que é uma abordagem sobre os períodos literários ocorridos no Brasil. Inclusive já tenho prontos: “Aula de Quinhentismo em cordel”, “Aula de Barroco em cordel” e “Aula de Arcadismo em cordel” - esses dois últimos serão lançados agora em novembro, na Bienal 2013, aqui em Salvador. No mais seguirei fazendo minhas oficinas de cordel, palestras e recitais. Ah sim, acabei de fazer um cordel esta semana ,mas estou com receio de publicar ! O título é “A Fazenda da Record – um programa de dar dó.” Quer dizer, eu ando meio receoso com relação a essa crítica social que venho fazendo através do cordel. O fato é que tanto o cordel do Pedro Bial quanto o de Caetano Veloso me deram muita dor de cabeça! Agora sinto uma necessidade enorme de fazer silêncio e seguir com a minha produção voltada para a educação, ecologia e cultura popular. A Bahia continua conservadora, talvez o Brasil por inteiro. Veja que os poetas Gregório de Matos e Cuíca de Santo Amaro foram condenados pela sociedade por terem a verve crítica. Dizem muito por aí que é proibido proibir – mas tenho dúvidas disso! Ainda bem que não sou famoso e ninguém vai se preocupar em me biografar ! Passei a praticar meditação e começo a descobrir o quanto somos limitados, idiotas e pequenos diante desse universo complexo chamado vida humana...
 Trecho do cordel Big Brother Brasil: um programa imbecil:

Curtir o Pedro Bial
E sentir tanta alegria
É sinal de que você
O mau gosto aprecia
Dá valor ao que é banal
É preguiçoso mental
E adora baixaria.

Há muito tempo não vejo
Um programa tão "fuleiro"
Produzido pela rede Globo
Visando Ibope e dinheiro
Que além de alienar
Vai por certo atrofiar
A mente do brasileiro.

Me refiro ao brasileiro
Que está em formação
E precisa evoluir
Através da Educação
Mas se torna um refém
Iletrado, "zé-ninguém"
Um escravo da ilusão.





Trecho do cordel: Esse cara sou eu: Renan Calheiros!

- Deitadinho numa rede
 Como um bom samaritano
O Renan vai criar boi
No sertão alagoano
E doar filé mignon
Porque é um cabra humano!

-Ficha suja no Brasil

Não paga pelo que fez...
A justiça silencia,
O cabra faz outra vez...
Mas o pobre logo é preso
Roubando um pinto pedrês!

- A vitória do Renan

Me deixou desnorteado...
Todo o "acerto" em Brasília
Foi deveras camuflado:
Uma eleição secreta
Pra eleger um condenado!



Alguns trabalhos de Antonio Barreto estão em:

http://barretocordel.wordpress.com/

Abraços,
Juliana Gobbe




quarta-feira, 30 de outubro de 2013

ELIZANDRA SOUZA



Elizandra Souza é Poeta, Jornalista, Editora da Agenda Cultural da Periferia na Ação Educativa, locutora da Rádio Comunitária Heliópolis FM. Co-organizadora da Antologia Pretextos de Mulheres Negras com Carmen Faustino e textos de 20 poetisas negras. Autora do livro de poesias Águas da Cabaça, totalmente produzido por jovens mulheres negras com ilustrações de Salamanda Gonçalves (BA) e Renata Felinto (SP), lançado em outubro de 2012. Co-autora do livro de poesias Punga com Akins Kintê (Edições Toró, 2007) e participante  em antologias literárias como:Cadernos Negros, Negrafias, entre outras. Colaboradora da Revista O Menelick 2º Ato -MandelaCrew –Comunicação e Fotografia. Idealizadora do evento Mjiba em Ação – Comemoração ao Dia da Mulher Negra (25 de julho). Editora do Fanzine Mjiba (2001-2005).

A escritora nos concedeu a seguinte entrevista:



ECL- A jornalista Mel Adún faz a seguinte afirmação no prefácio do seu último livro: “A poesia de Elizandra Souza dança ao ritmo do hip-hop, dialoga com a juventude negra e desobedece ao racismo, quando se faz voz de si mesma e das suas. Trazendo a tona nossas dores, alegrias e anseios, do micro ao macro, da perifa de São Paulo para o mundo; sem perder uma identidade preta, feminina e uterina”. Qual é o papel dos poetas na sociedade atual?

ELIZANDRA SOUZA- O papel do poeta é o mesmo de todos os cidadãos, mas a arte consegue sensibilizar e tratar de temáticas sejam elas prazerosas ou de mal-estar, temáticas que a sociedade ou tenta esconder, que é o caso do racismo e da invisibilidade da população negra, no meu caso, a minha poesia fala constantemente da mulher negra, que esta na base da pirâmide social. Mulheres negras que carregam na pele o racismo e a desigualdade social e sustentam toda a sociedade. As minhas poesias trazem essa ancestralidade para que as mulheres negras possam se ver refletidas nos espelhos e com sua autoestima conseguir combater o racismo, se perceberem belas e protagonistas. O plano é audacioso, mas é um passo a passo diariamente.

ECL- Ao longo do livro Águas da Cabaça o leitor encontra vários excertos de textos de algumas escritoras, tais como: J. Nozipo Maraire, Maria Tereza, Zora Neale Hurston, entre outras. Como surgiu a ideia de homenageá-las?

ELIZANDRA SOUZA- Na verdade não é nem uma intenção de homenagem, mas uma forma de reverenciar autoras negras que são minhas leituras bases para me perceber como mulher negra, pois o racismo é tão escroto, que não nos vemos bonitas e inteligentes. E essas leituras me alimentam para protagonizar a minha arte e foi uma forma de apresenta-las para os leitores, pois temos dificuldades de encontrar referências bibliográficas dessas escritoras, outro dia ministrei um bate papo com professores e na roda de apresentação solicitei que falassem seus nomes e dissessem o nome de um escritor ou escritora negra, foi um silêncio constrangedor, até que alguém já na metade dos participantes, lembrou de Machado de Assis, aí foi outro constrangimento, pois a maioria nem sabia que o nosso principal escritor brasileiro é negro...Imagine se eu perguntasse só escritoras negras, lembrando que estou falando de professores que são as nossas fontes de conhecimento. Foi por essa provocação que citei trechos de livros e poesias de mulheres negras de várias partes do Brasil e do mundo como: Moçambique e Estados Unidos.

ECL- A poesia Gameleira foi escrita em homenagem ao escritor Luís Gama. Sabe-se que o autor com a publicação de Primeiras Trovas Burlescas de Getulino ridicularizou a aristocracia e os poderosos de sua época. Na sua concepção, qual foi a maior contribuição dada pelo escritor baiano à nossa sociedade?

ELIZANDRA SOUZA- Luís Gama é uma referência, uma personalidade negra que traz várias simbologias: poeta, advogado abolicionista, filho de Luiza Mahin, uma das lideranças mulheres da Revolta dos Malês. Ele deveria ser mais conhecido pela nossa sociedade, mas poucas pessoas conhecem. Ele é muito importante como outros que são inviabilizados pelo racismo. 

ECL- O sarau Cooperifa é uma das principais atividades de manifestação da cultura popular da cidade de São Paulo. Como se estrutura esses encontros? Todos podem participar?

ELIZANDRA SOUZA- O Sarau da Cooperifa completou nesse mês de outubro, 12 anos de atividades,que  acontecem todas as quartas-feiras no Bar do Zé Batidão na Zona de Sul da Periferia de São Paulo. Esporadicamente realiza-se outras atividades como Chuva de Livros, Sarau nas Escolas e Bibliotecas, Poesia no Ar e Mostra Cultural da Cooperifa. O sarau tem microfone aberto e todas as pessoas são bem-vindas.

ECL- Quais são os escritores preferidos da (leitora) Elizandra Souza?

ELIZANDRA SOUZA- As cinco autoras citadas em Águas da Cabaça:
- Conceição Evaristo
- Pauline Chiziane
- Maria Tereza
- Zora N. Hurston
- J. Nozipo Maraire
Demais:
- Elisa Lucinda
- Cristiane Sobral
- Carolina Maria de Jesus
- Mel Adún
- Cadernos Negros
- Cuti
- Nei Lopes
- José Carlos Limeira
- Fábio Mandingo
- Não negros (as) : 
- Eduardo Galeano
-Clarissa Estes Pinkola
-Mario Quintana
-Manoel de Barros
-Carlos Drummond de Andrade
-Guimarães Rosa
-Cora Coralina
-Clarisse Lispector

Aproveitamos para convidá-los para o lançamento da Antologia poética: Pretextos de Mulheres Negras organizada por Carmen Faustino e Elizandra Souza.



 Abraços,
Juliana Gobbe