quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Marco Haurélio

O escritor Marco Haurélio nasceu em Riacho de Santana na Bahia. Conviveu desde muito jovem com as manifestações da cultura popular nordestina. Através de uma sensibilidade ímpar registrou a literatura oral do sertão baiano.
É autor de uma produção poética elogiada por crítica e leitores. Seu livro mais recente destina-se aos educadores do Brasil: Literatura de Cordel – Do sertão à sala de aula.
Na penúltima sextilha de O romance do Príncipe do Reino do Limo Verde, lemos:

Por isso é que Marco Haurélio
Não se rende nem se vende,
Luta com as armas que tem:
Ora ataca, ora defende.
Algumas vezes ensina
E, ensinando, ele aprende.

O escritor baiano concedeu uma entrevista exclusiva ao nosso blog. Os amantes da cultura popular agradecem esse olhar identificador de uma prática social longeva que ora se manifesta nas expressões espontâneas do povo brasileiro.

                              

ECL- Frequentemente se estabelece alguma confusão quando se fala em cordel, embolada e repente. Quais seriam as diferenças entre estas três manifestações?

MARCO HAURÉLIO- Bem, para começo de conversa, o cordel pertence ao âmbito da literatura, ao passo que o repente e a embolada são manifestações da oralidade. Embora o cordel se vincule, como toda a poesia que chamo de bárdica, à oralidade, se diferencia do repente e, mais ainda da embolada, por sua função. O repente está mais próximo à tradição medieval dos menestréis, com a viola substituindo a bandurra e outros elementos de cordas, e a embolada, com seus instrumentos de percussão, se aproximam mais das tradições vindas da África. Embora, num país como o Brasil, em que a pluralidade cultural salta aos olhos, estas fronteiras não podem ser delimitadas com precisão.

ECL-  No cerne da cultura popular costuma se afirmar que Leandro Gomes de Barros é o “pai” da literatura de cordel no Brasil. Conte nos sobre os feitos deste exímio cordelista.

MARCO HAURÉLIO- Leandro Gomes de Barros é o pai da literatura de cordel como a conhecemos hoje. O que não significa que ele tenha sido o primeiro a escrever cordel no Brasil. Houve outros antes dele, como João Santana de Maria, o Santaninha, citado por Sílvio Romero. Mas é a partir dele, Leandro, dos temas que desenvolveu e das causas que abraçou, que o cordel se consolidou. É esta semente, cultivada por mais de um século, por poetas como José Camelo de Melo, Joaquim Batista de Sena, Manoel Camilo dos Santos, Delarme Monteiro, Manoel D’Almeida Filho, e, atualmente, por Rouxinol do Rinaré, Arievaldo Viana, Rafael Neto e Klévisson Viana, para ficar em alguns, que Leandro plantou com o zelo dos que enxergam além. Por exemplo, são dele a Peleja de Manoel Riachão com o Diabo, base de todas as pelejas em que um cantador tem o demônio como antagonista; a História da Donzela Teodora, versão em cordel de um livro do povo que aproxima uma figura arquetípica, a donzela sábia das Mil e uma noites, ao universo de disputas verbais dos cantadores nordestinos; a Batalha de Oliveiros com Ferrabrás, obra que melhor aproveita um episódio do ciclo carolíngio, mais presente na tradição das cavalhadas do que propriamente no cordel; e O cachorro dos mortos, talvez o melhor cordel dramático de todos os tempos.



ECL-  No seu livro Breve História Da Literatura De Cordel encontramos a seguinte passagem: “As narrativas populares, de fundo heroico, satírico ou religioso, impregnaram a obra dos grandes escritores da Idade Média e do Renascimento”. Quais são os autores mais importantes dessa época?

MARCO HAURÉLIO- São tantos, e quase todos bebiam na fonte da oralidade. Para ficar em alguns: Chaucer, autor dos Contos de Canteburry; Boccaccio, que com o Decameron, forneceu muitos temas à literatura picaresca; Rabelais, se insurgindo contra os modelos clássicos em seu Gargantua; e William Shakespeare, que foi buscar nas tradições populares de vários países a inspiração para sua obra imortal.


ECL-  No que diz respeito às capas dos folhetos, sabe-se que antigamente eram chamadas de “capas cegas”, ou seja, sem ilustrações. Com o passar do tempo desenhos e fotos ganharam espaço. Como a xilogravura insere se neste contexto?

MARCO HAURÉLIO- A primeira xilogravura apareceu, como fato isolado, em uma capa de um folheto de Francisco das Chagas Batista, datado de 1907. Na década de 1930, era usada em pequena escala, mas a preferência dos editores como João Martins de Athayde era pelo desenho. Com a venda do espólio de Athayde, paraibano que estabeleceu indústria gráfica no Recife e se tornou o maior editor  de cordel de todos os tempos, para o alagoano José Bernardo, que vivia em Juazeiro do Norte (CE), a xilogravura passou a ser usada com mais frequência. Juazeiro, como sabemos, é um centro religioso cuja vida cultural e social gira até hoje em torno da figura do Padre Cícero Romão Batista. Havia, e ainda há, na cidade muitos s que trabalhavam a madeira. Então, os clichês zincografados, com os quais Athayde trabalhava, já velhos e gastos foram substituídos por imagens talhadas na madeira por atesãos como Inocêncio da Costa Nick, Walderedo Gonçalves e Damásio Paulo da Silva. E também pelo genial Stênio Diniz, neto de José Bernardo. Paralelamente, na região de Caruaru (PE), cidade do agreste famosa por sua feira celebrizada por Luiz Gonzaga, nos versos de Onildo Almeida, os poetas desenvolveram um estilo mais simples, mas igualmente marcante. É o que o pesquisador Jeová Franklin de Queirós denomina “escola pernambucana”, que tem nomes como J. Borges, José Costa Leite e Jota Barros.



ECL-  Como você avalia o cordel na Literatura contemporânea? Os educadores podem de alguma forma contribuir para o fomento da cultura popular junto aos educandos?

MARCO HAURÉLIO- O cordel na atualidade está presente em duas frentes. Continua sendo vendido no meio tradicional, mesmo sem o vigor dos tempos áureos, em cidades como Juazeiro do Norte (CE), Bom Jesus da Lapa (BA), Canindé (CE), na Feira de São Cristóvão no Rio de Janeiro, no Centro Cultural Dragão do Mar, em Fortaleza e no Mercado Modelo, em Salvador. Poetas como o baiano Zeca Pereira ainda correm de cidade em cidade, com uma mala de folhetos, o que é louvável, pois alimenta a tradição itinerante do cordel. Por outro lado, principalmente a partir da mostra Cem Anos de Cordel, idealizada pelo jornalista Audálio Dantas, em 2001, que teve como cenário o SESC Pompeia em São Paulo, grandes editoras passaram a se interessar pelo gênero. A editora Hedra lançou, sob coordenação do saudoso pesquisador Joseph Luyten, a coleção Biblioteca de Cordel. Em 2007, a Nova Alexandria criou a coleção Clássicos em Cordel, sob minha coordenação, que já se aproxima dos vinte títulos e traz autores como João Gomes de Sá, Klévisson Viana, Moreira de Acopiara, Geraldo Amâncio Pereira, Varneci Nascimento, Rouxinol do Rinaré, entre outros. Discute-se se esse novo cordel é um híbrido ou somente a tradição atualizada. Mas o que chama a atenção é a vitalidade de um gênero que, por várias vezes, teve a morte anunciada por pesquisadores como Átila Almeida, mas soube se adaptar aos novos tempos e às demandas da contemporaneidade. Nesse contexto, o cordel chega à sala de aula. Os educadores podem — e devem — trabalhá-lo. Antes, porém, é preciso que pesquisem sua história e características, para não confundirem o gênero, que é o cordel, com o formato em que é publicado — predominantemente o folheto. Lamentavelmente, a maior parte dos textos da internet, a começar pelo verbete na Wikipédia, que traz uma espécie de linha evolutiva totalmente equivocada, misturando, de forma gratuita, vários gêneros da chamada poesia popular.



ECL-  Em que contexto se deu a criação da “Caravana do Cordel” em São Paulo?

MARCO HAURÉLIO- A Caravana do Cordel surgiu em 2009, mas foi gestada a partir de várias experiências dos poetas nordestinos residentes em São Paulo. A princípio, o nome Caravana do Cordel, sugestão minha, abarcava qualquer movimentação dos poetas, como, por exemplo, a presença da coletividade no lançamento de um livro. A ideia ganhou corpo como movimento, depois que um dos membros fundadores, o cearense Costa Senna, sugeriu aos responsáveis pelo Espaço Cineclubista da Baixa Augusta a realização de um encontro mensal de cordelistas. Assim, o evento passou a chamar-se também Caravana do Cordel, ampliando o conceito. Antes disso, a iniciativa pioneira de João Gomes de Sá, o Salão da Literatura de Cordel, realizado em Guarulhos, forneceu o modelo seguido pela Caravana, respeitando a característica e o potencial de cada membro. Depois, o evento tornou-se itinerante e viajou pelo interior de São Paulo e de Minas Gerais. Hoje, por conta da agenda de seus membros, as apresentações têm sido mais esparsas, mas o conceito permanece.

Dica de Leitura:


Literatura de Cordel - Do Sertão à sala de aula.
Editora Paulus

    
                                 

 Abraços,
Juliana Gobbe

domingo, 7 de julho de 2013

Férias.

Em agosto...confiram uma entrevista inédita com um expoente nas pesquisas sobre o cordel no Brasil: Marco Haurélio.

terça-feira, 28 de maio de 2013

INÁ CAMARGO COSTA

O dramaturgo e poeta alemão Bertold Brecht com uma inconfundível percepção do capitalismo escreveu em Histórias do sr. Keuner :

O sr. Keuner tinha pouco conhecimento dos homens. Ele dizia: “Conhecimento dos homens só é necessário quando há exploração. Pensar significa transformar. Quando penso em alguém eu o transformo, quase me parece que ele não é absolutamente como é, mas que passou a ser assim quando comecei a pensar sobre ele.

Em confluência com o pensamento brechtiano encontra-se  Iná Camargo Costa. (Professora aposentada do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia  Letras e Ciências Humanas FFLCH- USP). Com grande atuação no Brasil como pesquisadora, curadora e palestrante de muitos debates sobre a arte em seu viés social, a professora, estabeleceu desde sempre através de suas colocações um olhar crítico e lúcido sobre o teatro épico no Brasil e seus desdobramentos no séc 21.

 Em entrevista exclusiva para o Espaço de Criação Literária Bertold Brecht a autora de A Hora do Teatro Épico no Brasil (Graal) , Sinta o Drama (Vozes), Panorama do Rio Vermelho (Nankin) e Nem uma Lágrima (Expressão Popular e Nankin) fala sobre o pensamento dialético no teatro épico hoje, e, claro sobre: Brecht.


 ECL- O surgimento do Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE) constituiu um marco importante no teatro brasileiro?

INÁ CAMARGO COSTA -Se entendermos por teatro brasileiro o teatro convencional, não constituiu marco nenhum, pois este nem tomou conhecimento do CPC. Mas se adotarmos o ponto de vista dos jovens artistas que se envolveram com a sua fundação (como Vianinha, Chico de Assis e João das Neves entre outros) e desenvolveram seu potencial artístico-político em suas atividades, podemos até mesmo dividir a história do teatro convencional em antes e depois do CPC. Basta lembrar que, depois de instaurada a ditadura e destruído o CPC em 1964, o melhor e mais importante teatro brasileiro foi um desenvolvimento de suas experiências, a começar pelo Show Opinião.

ECL - No prefácio do seu livro: A hora do teatro épico no Brasil o crítico literário Roberto Schwarz ressalta que: “Com o golpe de estado de 1964, a trajetória que acompanhamos ficou interrompida. Como era inevitável, o teatro em parte reagiu, em parte se ajustou, e em parte se ajustou reagindo”. Existe na contemporaneidade um pensamento dialético no teatro brasileiro?

INÁ CAMARGO COSTA - Preferindo falar do que conheço, acho que existem grupos teatrais que exercitam em cena um pensamento claramente pautado pela dialética. Vou me limitar a enumerar alguns dos que conheço melhor. No Rio de Janeiro existe a Companhia Ensaio Aberto; em Natal, o grupo Alfenins; em Porto Alegre, o grupo Ói nóis aqui Traveis, e em São Paulo são inúmeros: Folias d’Arte, Engenho Teatral, Companhia do Latão, Companhia do Feijão, Antropofágica, Ocamorana, Brava, Dolores – para me limitar a exemplos que me ocorrem sem precisar pensar muito.
Quanto à produção teórica, prefiro deixar para vocês a tarefa de identificar os nossos companheiros na academia, pois estou aposentada há exatos 10 anos e não sei o que anda acontecendo por lá. Mas para me limitar a referir amigos que militam no teatro, posso citar o Sérgio de Carvalho, que é da Companhia do Latão, o Márcio Marciano, do grupo Alfenins, Luiz Fernando Lobo da Ensaio Aberto, Márcio Boaro do Ocamorana, Moreira do Engenho, Zernesto e Pedro Pires do Feijão, Fábio e demais companheiros da Brava, Tiago da Antropofágica, Luciano do Dolores e assim por diante. Acho que, com esta enumeração que não é exaustiva, posso afirmar que existe, sim, um pensamento dialético no teatro brasileiro.

ECL - Na década de 60 as concepções artísticas oriundas do Agitprop aproximaram os atores brasileiros de uma visão mais politizada em detrimento de um posicionamento puramente esteticista. Qual é o papel desse movimento no século 21?

INÁ CAMARGO COSTA - Agitprop não é movimento cultural, mas ação política definida por um partido revolucionário. O agitprop histórico foi criado pelo partido de Lenin para desenvolver ações culturais com objetivos políticos no âmbito da cultura durante a guerra civil (1918-1920) e depois foi exportado para países como Alemanha, França e Estados Unidos. A questão esteticista nem se colocava pois, para os artistas revolucionários, a “arte pela arte” era o mesmo que “arte para o mercado”. Se o século 21 criar algum partido capaz de fazer uma revolução e de mobilizar artistas para a causa, seu papel será o mesmo: criar todas as modalidades de arte aptas para cultivar e disseminar o ponto de vista da revolução proletária no âmbito da cultura.

ECL - A perspectiva do “teatro de militância” numa atuação com forte viés social  pode, de certa forma, apontar um horizonte mais humanizador diante do ser humano diluído no pós-modernismo?

INÁ CAMARGO COSTA - Não tenho a menor dúvida em relação a isso. Basta pensar que o pós-modernismo é esteticismo de mercado cinicamente assumido. Todos sabemos que o mercado pode ser qualquer coisa, menos humanizador. Ao contrário: para além de o mercado se alimentar da mais-valia extraída dos trabalhadores, sua função é escamotear esta alienação (ou extorsão, ou açambarcamento) da mais-valia, cultivando o fetichismo da mercadoria. O pós-modernismo está totalmente mergulhado neste fetichismo. Um “teatro de militância” que comece por denunciar esta situação seguramente pode apontar para um horizonte simplesmente humano. Não custa lembrar que uma das maneiras de definir o socialismo é a liquidação da sociedade de classes, na qual a maioria produz a mais valia que alimenta o parasitismo, a desumanidade e a barbárie da minoria.


ECL - Em seu livro mais recente: Nem uma lágrima, temos: “Depois de Brecht não há mais lugar para uma estética normativa no teatro". Qual é o legado que o dramaturgo alemão deixou para o ocidente?


INÀ CAMARGO COSTA - A geração de Brecht rompeu conscientemente com a estética normativa dos críticos convencionais ao praticar – com conhecimento de causa – o direito de trânsito por todas as formas culturais e gêneros literários, misturando o que bem entendesse. Estes artistas descobriram que a liberdade na arte deve ser exercida tanto no plano da escolha dos assuntos quanto no plano das formas e técnicas, sem aceitar ordens nem vetos de nenhuma instância que não fosse sua própria consciência artística e política. Para além de uma obra literária de amplo alcance – teatro, romance e poesia –, Brecht deixou inúmeros escritos teóricos que ajudam a entender a sua luta e a de todos os artistas do ocidente. Este é o legado pelo qual ele responde pessoalmente, mas há também o exemplo do artista que nunca se enganou com o canto de sereia do mercado, nem se curvou ao moralismo dos esteticistas que pregavam a renúncia aos meios de produção cultural controlados pelo inimigo. Pelo contrário, ele recomendava a luta pela socialização destes meios de produção também, entendendo que uma forma de travá-la dependia da atuação em seu interior, na condição de artista assalariado.

Dica de Leitura:


 Abraço,
Juliana Gobbe

quinta-feira, 2 de maio de 2013

O Velho Graça por Dênis de Moraes.


O escritor russo Máximo Górki afirmou certa vez que a única coisa que transcende a existência do ser humano é a sua obra. Frase que valida a trajetória do brasileiro Graciliano Ramos. Em comum entre os dois autores temos a incompreensão por parte de muitos críticos, a existência tumultuada e dois livros autobiográficos que carregam o mesmo título: Infância.
Mas, o fato de maior importância que se alinha nos desvãos da história é que tanto em um como em outro, além do inquestionável talento, temos a luta que se trava pelo reverso daquilo que nos foi estabelecido.
Longe das amarras de um ufanismo desarrazoado é urgente reencontrar em Graciliano um Brasil que a cultura de massa insiste em jogar fora.
Nesses tempos de palavras mornas, fomentadas pela aclamação fácil e excessivamente mercadológica, Dênis de Moraes nos presenteia com a reedição da biografia: O velho Graça. Um momento de leitura substancial para os admiradores de um escritor singular na história da literatura brasileira.
Confiram a entrevista que Dênis de Moraes, considerado o melhor biógrafo de Graciliano Ramos, concedeu ao Espaço de Criação Literária Bertold Brecht.

                                                     Arquivo pessoal: Dênis de Moraes
 





ECL-Quais livros formaram o leitor Dênis de Moraes?

DÊNIS DE MORAES - Sou filho de um grande professor de literatura brasileira e portuguesa. Foi ele o meu mestre na formação do gosto literário e na paixão pela literatura como possibilidade de expressão e tradução da condição humana. E não é casual o fato de meus autores fundamentais serem compartilhados com meu saudoso pai. Graciliano Ramos (Vidas secasSão BernardoMemórias do cárcere), Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa e Clarice Lispector. 


ECL- Conte-nos sobre sua motivação em reeditar “ O velho Graça” vinte anos após a 1ª edição?

DÊNIS DE MORAES- O livro estava esgotado há vários anos, e considerei que os 120 anos de nascimento de Graciliano, completados em 27/10/2012, constituíam uma ocasião propícia para relançá-lo. Chamo a atenção para o fato de que introduzi acréscimos no texto original. Dois deles me parecem significativos. Consegui localizar e destacar as principais questões abordadas nas cinco entrevistas expressivas que Graciliano concedeu ao longo da vida. Ele era esquivo e costumava driblar o assédio de repórteres dizendo que não tinha nada de útil a dizer... Os jornalistas Francisco de Assis Barbosa, Homero Senna, Newton Rodrigues, João Condé e Joel Silveira, durante a década de 1940, conseguiram a proeza de dobrá-lo e obtiveram declarações interessantes sobre o seu processo de criação (reescrevia obsessivamente os textos e cortava o que chamava de “gorduras”, com uma régua guiando seu lápis implacável); o papel do escritor na sociedade (ressaltava que a literatura deve preservar sua autonomia frente à política, sem deixar de refleti-la); e suas preferências literárias. Outro acréscimo relevante foi a carta que Graciliano chegou a redigir e jamais enviou ao então presidente Getúlio Vargas, em 1938. Um desabafo sobre as dificuldades enfrentadas durante e depois do período da prisão (entre 3 de março de 1936 e 10 de janeiro de 1937). A carta, de uma lauda, era respeitosa, ainda que com algumas ironias, como, por exemplo, ao qualificar Vargas como “meu colega de profissão”, numa alusão ao ingresso do ditador na Academia Brasileira de Letras com apenas um livro de discursos.... É evidente que elegeu Vargas como destinatário numa tentativa de questionar o chefe do regime que o encarcerara sem processo ou culpa formada.
                                                

                                                                           Arquivo pessoal: Dênis de Moraes


ECL- No prefácio à 1ª edição de “O velho Graça”, Carlos Nélson Coutinho nos brinda com o seguinte excerto: “Vemos, por exemplo, como não bastou a Graciliano, para se tornar um excepcional escritor, a profunda e empática vivência com os problemas da sua região, do seu povo”. Qual é o legado que o escritor alagoano deixou ao Brasil?

DÊNIS DE MORAES- Poucos escritores de sua geração demonstraram tanto compromisso com o homem brasileiro como Graciliano. Ele fez de sua criação literária um instrumento de interpretação e reintervenção na realidade social e política do país, sempre com um olhar de compaixão para com os excluídos e os que sofrem com as explorações de qualquer natureza. Sua obra sempre se pôs ao lado do povo nordestino, buscando retratar seus problemas, carências, conflitos e anseios. Qual escritor foi capaz de recriar esteticamente o drama da seca, com tamanha verossimilhança e tanto sentimento de partilha e solidariedade, quanto o Graciliano de Vidas secas?  Por merecimento, é hoje um clássico universal. Isso se deve a seu compromisso inabalável com a condição humana. Sua obra, como poucas, reflete solidariedade e sensibilidade para com as aspirações, as vicissitudes e as expectativas dos homens na passagem pela Terra. Foi um dos escritores que demonstraram maior empenho em compreender as variações e as manifestações contraditórias e belas da alma humana. Está acima dos tempos históricos; comunica-se com todos os tempos, todos os contextos e todas as situações que envolvem o indivíduo e a coletividade em seus embates com as circunstâncias da vida.

ECL- Os literatos hoje perseguem em sua maioria, características técnicas se apropriando muitas vezes de um discurso puramente estético. Como você avalia o atual momento literário no nosso país?

DÊNIS DE MORAES- Vou responder à pergunta tentando imaginar o que Graciliano Ramos diria. Talvez dissesse que está na hora de reviver o realismo crítico, mais compromissado socialmente e capaz de se sensibilizar pelo destino do homem brasileiro, com suas aspirações, sofrimentos, inquietações e experiências. Com as exceções que merecem respeito e consideração, a literatura atual está comportada e resignada demais. Graciliano repetiria que é preciso torná-la mais instigante e crítica, porque, como ele ressaltava, “a arma do escritor é o lápis”.

ECL- Em 1.927, Graciliano foi eleito prefeito de Palmeira dos Índios. Sabe-se também da inserção do autor no PCB. Até que ponto a veia política influenciou a produção literária?

DÊNIS DE MORAES-  De um lado, Graciliano sustentava que a literatura não pode ser reduzia à ideologia, pois a especificidade do trabalho criativo se sobrepõe às exigências políticas imediatas e aos fervores revolucionários. De outro lado, a política sempre o atraiu muito, desde o noticiário sobre a Revolução Russa de 1917, da qual se inteirou pela assinatura de jornais do Rio que chegavam de trem, com enorme atraso, a Palmeira dos Índios. Autodidata em idiomas desde a adolescência, ele conseguia ler textos de Marx e Lenin em francês, através  de encomendas pelo reembolso postal a livrarias cariocas que importavam títulos estrangeiros. Embora ainda não fosse comunista, logo se aproximou de ideias libertárias. A paixão política o fez aceitar a candidatura a prefeito de Palmeira dos Índios, depois de receber apelos de muitos frequentadores da sua loja de tecidos, que o viam como uma reserva moral e de honradez na cidade, e também em resposta aos boatos de que relutava disputar a Prefeitura com medo de perder. A sua administração ainda hoje é considerada uma referência de administração séria, honesta e  empreendedora. Combateu privilégios, acabou com a corrupção e o endividamento público, priorizou obras nos bairros pobres e na periferia, reformou escolas públicas, fez cumprir o Código de Posturas para frear a desordem urbana que imperava na cidade. E não nos esqueçamos que, de 1945 até a sua passagem, em 20/3/1953, foi militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Graciliano acreditava firmemente que o socialismo era o caminho para a justiça e a emancipação sociais. Sua militância se caracterizou por extrema lealdade à causa socialista e ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), no qual ingressou em 18 de agosto de 1945, a convite do então secretário-geral, Luiz Carlos Pretes. Mas é importante insistir que Graciliano não admitia a tutela ideológica sobre a criação literária. Ele entendia, lucidamente, que, por mais solidários que sejam às causas populares, escritores e artistas não podem sufocar suas inquietações, nem se conformar que o partidarismo lhes indique as ferramentas do ofício.

ECL- Discorra sobre “a dor e a delícia” de ser um dos grandes biógrafos de Graciliano no Brasil?

DÊNIS DE MORAES- Dor nenhuma, a não ser a dor que eu, Graciliano e todos os que lutamos por uma sociedade justa e igualitária sentimos diante de um mundo tão injusto e, como bem acentuava o mestre Milton Santos, perverso. Delícias múltiplas, como desvendar segredos e mistérios, saber mais do que está no livro, ter conhecido Heloísa de Medeiros Ramos (grande mulher e viúva do romancista) e me aconselhar com Graciliano sempre que tenho dúvidas e preciso que me digam que não posso transigir no que é essencial.




O Velho Graça
Autor: Dênis de Moraes
Boitempo Editorial




Abraços,
Juliana Gobbe